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Durante anos, carreguei comigo aquele sentimento constante de inadequação. Sabem aquela sensação de olhar à volta e pensar: “Por que é que parece tão fácil para os outros, e para mim é sempre um esforço?” Sempre me perguntei por que razão tarefas como gerir o tempo, lutar contra a procrastinação ou até interagir socialmente me deixavam completamente exausta.
Foi só já na idade adulta, quando fui diagnosticada com PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) e identificada como estando no espectro do autismo, que finalmente tudo começou a fazer sentido.
Receber estes diagnósticos foi um misto de emoções. Por um lado, senti um enorme alívio — finalmente tinha um “nome” para o que sempre senti. Por outro, percebi que agora precisava de reaprender a compreender quem eu sou e como funciono. Este post é um bocadinho dessa jornada — os desafios que enfrentei (e ainda enfrento) e as estratégias que me ajudam a viver de forma mais autêntica e equilibrada.
A Minha Jornada de Autodescoberta
Grande parte da minha vida foi como remar contra a maré, com a água a bater-me na cara (e nem um colete salva-vidas à vista!). Ouvi coisas como:
• “És tão inteligente, mas não te aplicas.”
• “Estás sempre com a cabeça no ar.”
• “Porque és tão intensa com certas coisas?”
Na escola, já era evidente que, enquanto conseguia mergulhar de cabeça em temas que me fascinavam, noutras áreas bloqueava completamente. Não era falta de vontade, mas parecia que o meu cérebro só trabalhava quando realmente queria — e isso era frustrante.
Quando entrei na universidade, consegui completar algumas cadeiras, mas com muita dificuldade. As aulas eram um desafio constante, e muitas vezes precisava de sair a meio, em lágrimas e em ataques de pânico. Tudo parecia ser “demasiado”: o ritmo, a pressão, até mesmo o simples ato de tentar prestar atenção em aulas longas. Apesar disso, continuei a esforçar-me e até consegui arranjar um trabalho enquanto estudava, com o objetivo de juntar dinheiro para comprar um iPad que me ajudasse nos estudos.
No entanto, o trabalho foi outro grande desafio. Entre os sons constantes, as luzes fortes e as interações com pessoas, o ambiente era esmagador. Era difícil equilibrar tudo, e acabava o dia tão exausta que não conseguia focar-me no resto — nem nas aulas, nem em mim mesma. Apesar de ter alcançado o meu objetivo de comprar o iPad, o desgaste emocional e físico foi enorme, e ficou claro que estava a ultrapassar os meus limites.
Os Desafios de Criar Rotinas Simples
Um dos maiores desafios que enfrento é o facto de ter tendência para complicar as coisas. Tenho esta necessidade de fazer listas longas e detalhadas, e o mesmo acontece com as rotinas: tudo acaba por ser demasiado ambicioso. Por exemplo, se estou a criar uma lista de tarefas, em vez de incluir apenas o essencial, acabo por adicionar mil detalhes — desde grandes projetos até coisas pequenas, como “verificar o e-mail” ou “trocar o saco do lixo”. Isso faz com que as listas fiquem intermináveis e impossíveis de cumprir.
O mesmo acontece com as rotinas diárias. Quando tento criar uma rotina para o meu dia, incluo tantas coisas que, no final, acabo por falhar naquilo que é mais básico, como cuidar da higiene pessoal. Há dias em que sinto que gastar energia só para tomar banho ou lavar o cabelo já é um esforço enorme, mas ainda assim coloco na cabeça que “preciso de fazer mais”. É frustrante, porque começo o dia com grandes planos e acabo-o sem cumprir metade. Isso cria um ciclo de culpa, ansiedade e exaustão que é difícil de quebrar.
Sei que as rotinas simples, como acordar e fazer logo uma ou duas tarefas importantes, funcionam melhor para mim. Mas a minha tendência de complicar tudo — aliada à dificuldade em manter o foco — faz com que estas metas continuem a ser um desafio diário.
Not sponsored, mas recomendo a aplicação Routinery para criar e manter rotinas. Tem sido uma grande ajuda para me organizar e simplificar o meu dia a dia.
Os Desafios de Viver com Neurodivergência na Idade Adulta
Mesmo sabendo agora que sou neurodivergente, os desafios continuam. Não é fácil desaprender anos de autoexigência e autocrítica, mas estou a tentar. Aqui estão algumas das dificuldades com que ainda lido:
1. Aceitar que funciono de forma diferente
Comparar-me aos outros é uma batalha constante. Durante muito tempo, senti que precisava de trabalhar o triplo para atingir os mesmos resultados que os outros. Ainda me custa ver amigos e colegas a avançarem na vida enquanto eu sinto que estou em pausa. Tento lembrar-me de que cada um tem o seu ritmo, mas nem sempre é fácil silenciar aquela voz crítica que me diz: “Devias estar a fazer mais”.
2. Gerir a sobrecarga sensorial e social
Supermercados, festas, até simples interações no trabalho podem ser avassaladoras. Durante o trabalho que fiz na universidade, os barulhos constantes, as conversas, as luzes… tudo parecia esmagar-me. Isso levou-me a perceber que preciso de escolher bem os ambientes em que me insiro e a criar estratégias para lidar melhor com estas situações.
3. Lidar com ansiedade e esgotamento
Durante anos, tentei mascarar as minhas dificuldades para parecer “normal”, mas isso teve um custo enorme. Lidar com colapsos emocionais e uma ansiedade constante tornou-se parte do meu dia a dia. Aprender a reconhecer os meus limites e respeitá-los tem sido essencial, mas é um trabalho contínuo.
Estratégias que Me Ajudam
Apesar das dificuldades, estou a encontrar formas de gerir melhor o meu dia a dia. Aqui estão algumas estratégias que me têm ajudado:
1. Trabalhar para simplificar listas e rotinas
Estou a aprender que menos é mais. Agora, tento criar listas curtas e focar-me em apenas uma ou duas tarefas prioritárias por dia. Também estou a simplificar as minhas rotinas. Em vez de tentar fazer tudo de uma vez, foco-me no básico, como tomar banho, preparar uma refeição ou organizar o meu espaço.
2. Rotinas que me trazem estabilidade
Criei uma rotina diária simples que começa com um pequeno ritual — como beber um chá enquanto organizo as ideias para o dia. Pequenos passos dão-me uma sensação de controlo, sem me sobrecarregar.
3. Técnicas para acalmar a cabeça e o corpo
Quando me sinto sobrecarregada, paro tudo e concentro-me na respiração. Às vezes, basta ouvir música ou fazer uma pausa estratégica para aliviar o stress acumulado.
4. Aprender a dizer “não”
Este foi um dos passos mais difíceis. Sempre tive medo de desapontar os outros, mas aprendi que dizer “não” é essencial para proteger a minha saúde mental.
5. Apoio de outras pessoas neurodivergentes
Encontrar comunidades de pessoas que passam por desafios parecidos foi transformador. É incrível partilhar histórias, rir das coisas que só nós entendemos, e perceber que não estou sozinha.
O Caminho para a Autenticidade
Descobrir que sou neurodivergente mudou tudo. Fez-me perceber que não preciso de viver a tentar ser alguém que não sou.
Se estás a passar por algo parecido, quero dizer-te isto: não estás sozinha. Aprender quem somos é um processo desafiante, mas também libertador. Não há uma forma “certa” de ser ou viver. Só existe a tua forma, e está tudo bem.
E tu? Já te sentiste como se estivesses a remar contra a maré? Como tens lidado com os teus próprios desafios? Partilha a tua história no formulário de contacto no fim da página — adorava ouvir a tua história, aprender contigo e celebrar as nossas semelhanças e diferenças.